A Arena Estação 43, em Londrina, virou palco de reflexões necessárias na tarde desta sexta-feira (28/11) durante o Festival internacional de Inovação de Londrina (Fiil). Dentro da programação dedicada às cidades inteligentes e aos desafios da inovação na gestão pública, o corregedor-geral da Justiça do Tocantins, desembargador Pedro Nelson de Miranda Coutinho ministrou palestra com o tema “O Judiciário do Século XXI”.
Na ocasião, o magistrado abriu sua fala fazendo um resgate no tempo com a cena que moldou a formação de toda uma geração de juristas.
“Quando entrei na magistratura, o som da máquina de escrever preenchia as salas. Cada sentença era batida à mão, sem tecla de voltar.”
O comentário arrancou sorrisos nostálgicos e cumpriu o papel de lembrar que o Direito já foi um ofício de passos lentos, onde cada palavra custava esforço físico. E que justamente por isso, talvez, cada decisão carregasse outro peso.
Mas o mundo virou rápido demais. E foi aí que o corregedor tocou no ponto central da palestra: a tecnologia mudou não só as ferramentas, mas a essência da atuação jurídica. Ainda assim, fez um alerta firme ao apontar que, “com a aceleração do tempo, nunca deixemos que a informação passe na frente da reflexão.”
A discussão seguiu para o tema da disrupção, que ele descreveu como a coragem de romper com a inércia, especialmente em setores tradicionalmente resistentes, como o jurídico. O desembargador trouxe a chamada “síndrome de Vespasiano”, o imperador que barrou uma inovação por medo de provocar desemprego. Um dilema atual, que ainda hoje trava decisões em órgãos públicos e privados, principalmente quando o assunto envolve automação, inteligência artificial e digitalização.
Segundo ele, a resistência a tecnologias disruptivas segue alimentada por receios legítimos, impactos sociais, substituição de trabalhadores e apego a processos antigos mesmo quando ineficientes. Mas ignorar o avanço, avisa, custa caro. “Se não prestarmos atenção, seremos derrubados e engolidos.”
Para o desembargador Pedro Nelson, o caminho não é fechar portas nem entregar tudo às máquinas; é encontrar o ponto de equilíbrio. “Camaleonar”, como ele descreveu: adaptar-se ao ambiente sem perder a essência. Em sua fala, o corregedor afirma que o Judiciário precisa ser flexível nos métodos, mas inabalável nos princípios.
Quando o assunto chegou à inteligência artificial, foi categórico. “A IA pode prever, mas não pode julgar com a profundidade que a Justiça exige. A previsão é estatística, o julgamento é sabedoria humana.”, pontuou.
No encerramento da palestra, reforçou que “a Justiça do futuro não será feita por máquinas inteligentes, mas por pessoas sábias.”, sendo aplaudido pelos presentes.