Palestras abordam desde o poder simbólico das líderes do crime até os mecanismos cognitivos explorados em fraudes virtuais

Elias Oliveira/Cecom

A atuação das organizações criminosas no Brasil ultrapassa a mera prática de delitos. Essas estruturas, cada vez mais articuladas, se consolidam por meio de um processo simbólico: a construção de narrativas que glorificam suas líderes e naturalizam a criminalidade como forma legítima de poder e pertencimento. Como pontuado pelo juiz Demétrius Gomes Lopes, durante sua palestra no segundo e último dia (27/3) da programação do IV Encontro de Inteligência do Poder Judiciário, esse processo contribui para que o crime organizado assuma, em determinadas comunidades, um lugar simbólico e, por vezes, de protagonismo justamente onde o Estado falha em se fazer presente.

Esse fenômeno de mitificação, como explicou o magistrado, não acontece ao acaso, está diretamente relacionado a fatores sociais, econômicos e culturais, encontrando solo fértil em contextos marcados pela exclusão e pela ausência de garantias aos direitos básicos. Nessas realidades, as organizações criminosas passam a oferecer aquilo que deveria ser função do Estado, como proteção, auxílio financeiro e, até mesmo, uma versão deturpada de justiça.

A imagem do(a) líder criminoso(a), então, se distancia da figura de um (A) simples infrator (a) da lei e passa a ocupar o lugar de “provedor(a)” ou “defensor(a)” da comunidade. O desafio que se impõe, segundo o palestrante, é o de compreender que o enfrentamento à criminalidade exige mais do que repressão: é preciso disputar esse campo simbólico, resgatando o sentimento de pertencimento e confiança nas instituições públicas.

Outro ponto de destaque na exposição do juiz foi o papel da comunicação e da cultura na construção e na disseminação dessas imagens mitificadas. Músicas, produções cinematográficas e até expressões do cotidiano contribuem para alimentar a ideia de poder e invulnerabilidade desses grupos, especialmente entre os(as) jovens em situação de vulnerabilidade social. Para ele, a desmistificação dessas organizações exige uma atuação articulada entre Estado e sociedade, a partir de políticas públicas eficazes, do fortalecimento institucional e da valorização da educação.

Demétrius Gomes Lopes concluiu sua apresentação reforçando que o enfrentamento a esse fenômeno passa por estratégias que aliem segurança pública, desenvolvimento social e, sobretudo, uma narrativa estatal capaz de se contrapor ao mito da criminalidade como forma de ascensão e poder.

Em seguida, a palestra “Cibersegurança e Neurociência”, proferida por Milena Santana de Araújo Lima, delegada de Polícia, evidenciou outra face da criminalidade contemporânea: os crimes praticados no ambiente virtual. A delegada apresentou casos concretos, destacando que esse tipo de prática tem se tornado cada vez mais recorrente, e reforçou a importância de medidas básicas de proteção, como a ativação da verificação em duas etapas nos aplicativos, para evitar a atuação de criminosos(as).

Ainda no âmbito das redes sociais, Milena alertou para os riscos de interações com perfis desconhecidos e atrativos muitas vezes utilizados como isca para golpes amorosos.

A especialista ainda abordou sobre como os(as) criminosos(as) exploram vulnerabilidades humanas para aplicar fraudes, e de que forma a sociedade pode se proteger. Ela explicou que a evolução dos golpes está diretamente ligada à maneira como o cérebro humano toma decisões.

“Os(As) golpistas estudam o funcionamento da mente e exploram atalhos cognitivos que usamos para processar informações rapidamente. Isso torna mais fácil para eles(as) induzirem as vítimas ao erro”, afirmou.

Entre os principais pontos abordados, destacou-se o uso de técnicas de persuasão como estratégia para manipular emoções e acelerar a tomada de decisões impulsivas. Um exemplo recorrente são os golpes bancários, nos quais o(a) fraudador(a) cria um senso de urgência para que a vítima forneça dados sensíveis sem refletir sobre as consequências.

A palestrante também chamou a atenção para o fato de que o avanço das tecnologias digitais tem permitido a aplicação de fraudes cada vez mais sofisticadas. Mesmo pessoas experientes podem ser enganadas, já que os(as) criminosos(as) utilizam uma combinação de engenharia social e ferramentas tecnológicas avançadas para construir situações altamente convincentes.

Como forma de prevenção, a delegada recomendou desconfiar de mensagens alarmantes, checar a autenticidade de comunicações bancárias e evitar clicar em links suspeitos. Além disso, reforçou a importância da educação digital, destacando que somente com informação acessível e contínua será possível fortalecer a capacidade de a sociedade reconhecer e evitar fraudes.

 


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