TJTO debate saúde mental com magistrados(as) e servidores(as) para além do Setembro Amarelo

Rondinelli Ribeiro

Reforçando a importância do acolhimento e da empatia, a presidente do Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO), desembargadora Maysa Vendramini Rosal, abriu, na tarde desta quinta-feira (24/9), a Roda de Diálogo “Comportamentos dentro do esperado e o risco do sofrimento naquele que parece estar bem”. A iniciativa integra as ações do Setembro Amarelo e reuniu magistrados(as), servidores(as), estagiários(as) e demais colaboradores(as) para uma conversa sobre saúde mental e as relações no ambiente de trabalho.

Realizado no auditório do Tribunal, em parceria com a Escola Superior da Magistratura Tocantinense (Esmat), o encontro foi mediado pelo médico psiquiatra do Núcleo de Acolhimento e Acompanhamento Psicossocial (NAPsi), Wordney Camarço. Participaram dos debates a doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (UCES), da Argentina, Leyliane Oliveira Araújo Masson, e a  médica psiquiatra Beatriz Ferroli Cavalcante, formada pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), com atuação clínica voltada a adolescentes e adultos.

Ao dar as boas-vindas aos participantes, a presidente do TJTO destacou que o cuidado com a saúde mental é uma prioridade da gestão e refletiu sobre a importância do olhar atento e empático nas relações humanas.  

Rondinelli Ribeiro
Presidente do TJTO, desembargadora Maysa Vendramini, desatacou que a atenção à saúde deve ser integral

“Eu espero que essa roda de conversa, esse diálogo, seja um convite para todos nós olharmos com mais atenção para nós mesmos e para quem está ao nosso lado. Para termos mais empatia uns com os outros e aprendermos a ouvir. Nem sempre o sofrimento é visível. Uma pessoa pode cumprir seus compromissos, sorrir, conversar e, ainda assim, estar passando por um momento muito difícil. Então, esteja atento e, se for preciso, procure ajuda”, afirmou a desembargadora Maysa Vendramini Rosal. 

Ao destacar que o cuidado com a saúde mental precisa fazer parte da rotina durante todo o ano, a presidente também fez um resgate das ações desenvolvidas no biênio, especialmente por meio do projeto JUS em Ação, que percorreu comarcas de entrância inicial levando atendimento a servidores(as) e magistrados(as), por meio da atuação do Centro de Saúde e do NAPSi.

“A Justiça é feita por pessoas, e a conquista de bons resultados passa necessariamente pelo cuidado com os servidores e também com os nossos magistrados. Com o JUS em Ação, levamos o atendimento dos nossos especialistas do Centro de Saúde, mas também focamos na saúde mental com o time do NAPSi. Levamos atendimento integral a todos que integram o Poder Judiciário do Tocantins”, destacou. “As portas da Presidência estão abertas para cada um de vocês, em qualquer necessidade que precisarem”, acrescentou.

Quando a pessoa está presente, mas não consegue funcionar

Hodirley Canguçu/Esmat
Encontro foi mediado e coordenado pelo psiquiatra do NAPSi/TJTO, Wordney Camarço

Mediando o encontro, o psiquiatra Wordney Camarço chamou atenção para uma situação que pode passar despercebida no ambiente de trabalho, o chamado presenteísmo. “Embora esteja fisicamente no ambiente de trabalho, a pessoa pode estar tão adoecida que não consegue funcionar. Então, esse é um desafio: diminuir não só o absenteísmo, que é a ausência do trabalho, mas também o presenteísmo”, explicou, frisando que enquanto o absenteísmo é percebido pela falta do trabalhador, o presenteísmo pode ser mais difícil de identificar. “A pessoa está ali, cumpre sua jornada, mas seu sofrimento interfere na capacidade de concentração, produtividade e interação”.

A violência da calmaria em mar revolto

Com uma imagem provocativa, de uma mulher debruçada na borda de uma piscina, a professora doutora em Psicologia, Leyliane Masson, abriu sua fala abordando o comportamento adotado por pessoas em sofrimento, o de adaptação.

Ao alertar sobre o tema da ação, “Comportamentos dentro do esperado e o risco do sofrimento naquele que parece estar bem”, ela mostrou o outro lado da personagem da imagem, em uma espécie de abismo.

Hodirley Canguçu/Esmat
Professora doutora em Psicologia, Leyliane Masson, despertou reflexão nos(as) participantes com imagem provocativa 

“Como nas redes sociais, as pessoas revelam o que querem, geralmente as melhores versões de si mesmas. E, de fato, só conhece o outro lado da história quem a vive”, refletiu.

A partir daí, a especialista falou sobre a adaptação como uma forma de lidar com situações difíceis. Segundo ela, adaptar-se pode ser necessário durante determinado período, enquanto a pessoa procura novas possibilidades. O problema aparece quando essa adaptação se torna excessiva.

“A adaptação pode ser uma estratégia importante enquanto a gente busca outras saídas e lugares melhores. O que eu quero chamar a atenção é para aquela pessoa que não apresenta queixas, não demonstra sofrimento e parece estar sempre muito bem adaptada. É uma pessoa que responde exageradamente ao que os outros esperam dela”, explicou.

Segundo Leyliane, quando essa adaptação ultrapassa determinados limites, a pessoa pode começar a funcionar no automático e perder o contato com aquilo que sente e deseja. “Quando essa adaptação passa do limite, ela pode se transformar em uma espécie de robotização. E, quando a pessoa começa a funcionar no automático, existe o risco de perder justamente aquilo que nos torna humanos: a capacidade de sentir, desejar e se questionar”, afirmou.

Para a especialista, esse esvaziamento pode aparecer de diferentes formas, como indiferença ou até uma espécie de desistência. Nem sempre, porém, significa que a pessoa esteja mal e tentando aparentar que está bem. Em alguns casos, ela simplesmente deixa de se perguntar como está ou o que está sentindo.

Sinais de alerta

Durante o encontro, as palestrantes chamaram atenção para alguns comportamentos que podem indicar que alguém está passando por um momento de sofrimento e precisa de apoio.

Entre eles estão mudanças de humor, isolamento social e alterações no uso de álcool ou outras substâncias. Mais do que identificar todos os sinais, a orientação é estar presente e disposto a ouvir.

Em situações assim, a primeira atitude é não se afastar. Acolher também significa escutar sem julgamentos, respeitar o tempo da pessoa e, quando necessário, incentivar a busca por ajuda profissional.

Saída

Quanto a buscar solução para sair do estado de sofrimento psíquico, a médica psiquiatra Beatriz Ferrolli, explicou que o primeiro passo é combater o estigma que envolve o tema envolvido.

A especialista alertou sobre o Ciclo do Estigma que leva ao silêncio e ao isolamento, fazendo com que a pessoa busque ajuda profissional tardiamente. Medo de consulta, medo do psiquiatra, do diagnóstico, da medicação, e do próprio preconceito e estigma integram este ciclo que deve ser combatido ao iniciar uma intervenção.

Rondinelli Ribeiro
A médica psiquiatra Beatriz Ferrolli falou sobre sintomas e tratamento para o estado de sofrimento psíquico

“Nem todo sofrimento é um transtorno mental, mas merece atenção e cuidado. E como a gente faz isso em uma sociedade adoecida? A gente precisa fortalecer a espiritualidade, ter hobbies, dormir bem. A gente tem muitos likes e estamos sem vínculos reais. É importante manter uma rotina minimamente organizada, com hábitos saudáveis que protegem a saúde mental”, destacou, ressaltando ainda a busca por orientação profissional ao menor sinal de alerta.

A médica também explicou que fatores genéticos podem contribuir para o desenvolvimento de transtornos mentais, mas o ambiente tem papel importante nesse processo e pode ser tanto acolhedor quanto adoecedor.

 


Modificado em:

Acessos:

19